Conhecida internacionalmente pelas ondas perfeitas para o surfe, Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, vive hoje uma realidade que vai muito além das praias. Impulsionada por um volume sem precedentes de royalties do petróleo, a cidade se transformou em um grande canteiro de obras e passou a ocupar o topo de um ranking econômico nacional.
Segundo dados do IBGE, Saquarema registrou, em 2023, o maior Produto Interno Bruto (PIB) per capita do Brasil, alcançando o valor de R$ 722.441,52 por habitante ao ano — um número impressionante e sem precedentes no país.
No entanto, a cifra contrasta de forma contundente com o cotidiano da maior parte da população. De acordo com o Censo 2022, o rendimento médio mensal dos moradores é de R$ 2.310, o que representa menos de R$ 28 mil por ano, abaixo das médias estadual e nacional. A disparidade evidencia um paradoxo: riqueza em números, mas desafios persistentes na vida real.
Royalties do petróleo impulsionam economia, mas levantam alertas
A arrecadação com royalties saltou de R$ 5,8 milhões em 2010 para R$ 2 bilhões em 2024, transformando profundamente o orçamento municipal. No ano passado, 79,37% das despesas executadas, que somaram R$ 2,49 bilhões, tiveram origem direta nos recursos do petróleo. Para 2025, a prefeitura afirma que a meta é reduzir essa dependência para 71,71%.
Para especialistas, o volume impressiona, mas exige cautela. O economista Mauro Osório, do Instituto de Estudos do Rio de Janeiro, alerta para a necessidade de planejamento de longo prazo.
“Um dia o petróleo vai acabar. O município precisa ter estratégia econômica, construir uma estrutura produtiva, atrair empresas e gerar receitas próprias para garantir sustentabilidade”, afirmou.
Crescimento acelerado e empregos frágeis
Um estudo elaborado por Mauro Osório e pelo mestre em desenvolvimento regional Henrique Rabelo aponta que o PIB per capita de Saquarema cresceu 1.398% entre 2010 e 2023. No mesmo período, o crescimento foi de apenas 6,2% no Estado do Rio e 8,2% no Brasil.
A população também cresceu rapidamente. Em 15 anos, o aumento foi de 28,3%, chegando a mais de 95 mil moradores em 2025, segundo estimativas do IBGE. Apesar disso, quase metade dos postos de trabalho no município está na informalidade, o que evidencia fragilidade no mercado de trabalho local.
“Há poucos empregos e boa parte deles são informais. Falta atividade produtiva”, resume Rabelo.
Obras, benefícios sociais e críticas da população
Entre os moradores, as opiniões se dividem. Há críticas ao crescimento desordenado de bairros periféricos, à precariedade do saneamento básico, à quantidade de ruas sem pavimentação e à dificuldade de colocar em pleno funcionamento novas unidades de saúde e educação por falta de profissionais.
Por outro lado, parte da população relata avanços proporcionados por cursos de capacitação financiados com recursos do petróleo e pelo impacto de programas sociais como as moedas Educa Saquá e Social Saquá, que ampliaram o acesso a serviços e consumo local.
Educação avança, mas ainda enfrenta desafios
Na educação básica, houve melhora significativa. Em 2005, Saquarema tinha o pior Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do ensino fundamental inicial entre os municípios da Região dos Lagos, com nota 3,3. Em 2023, o índice subiu para 6, embora ainda fique atrás de cidades vizinhas como Iguaba Grande, Casimiro de Abreu e Rio das Ostras.
Saúde sobrecarregada e promessa de concurso público
Mesmo com investimentos, a rede municipal de saúde segue pressionada pela alta demanda. O Hospital Municipal Porphírio Nunes de Azeredo, em Bacaxá, recebeu um anexo e passa por reformas, mas continua operando acima da capacidade.
Como resposta, a prefeitura anunciou a intenção de abrir um concurso público com 1.794 vagas nas áreas de saúde, educação e segurança ainda neste semestre, na tentativa de suprir a carência de profissionais.
Saneamento e conflitos urbanos no centro do debate
O saneamento básico é um dos temas mais sensíveis. Lideranças locais denunciam a poluição do canal que liga a lagoa ao mar e criticam obras realizadas sem diálogo com a população.
O serviço é dividido entre duas concessionárias. A Águas de Juturnaíba afirma atender 100% da população com abastecimento de água e 78% com esgotamento sanitário, com previsão de chegar a 90% até 2038. Já a Águas do Rio, responsável por Sampaio Correia e Jaconé, informa cobertura de água em 96% da área, mas ainda não iniciou obras de esgotamento, cuja universalização está prevista para 2033.
Além disso, há denúncias sobre construções irregulares em áreas próximas a reservas ambientais. A prefeitura informou que lavrou cerca de 2.500 autos de embargo em 2024 e 2025 e utiliza a plataforma GeoSaquá, que cruza imagens de satélite com dados de licenciamento para combater irregularidades.






