A Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) realizou investimentos milionários no Banco Digimais, instituição financeira ligada ao bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, durante a gestão do ex-governador Cláudio Castro (PL). Os aportes foram autorizados por Antonio Carlos dos Santos, ex-assessor do gabinete de Castro e então diretor Financeiro e de Relações com Investidores da estatal.
Os recursos foram aplicados em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e mantidos mesmo diante de sucessivos alertas do mercado sobre a situação financeira do banco. Posteriormente, parte dos investimentos foi transferida para modalidades com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Ex-assessor de Cláudio Castro comandava investimentos da Cedae
Antes de assumir a Diretoria Financeira da Cedae, Antonio Carlos dos Santos atuava como assessor-chefe do gabinete do então governador Cláudio Castro, no Palácio Guanabara. Sua indicação para o cargo estratégico na estatal permitia participação direta em decisões sobre contratos e aplicações financeiras.
O ex-diretor também esteve à frente de investimentos superiores a R$ 200 milhões realizados pela companhia no Banco Master, instituição que igualmente enfrentou questionamentos sobre sua saúde financeira.
Em nota, a atual administração da Cedae informou que alterou sua Política de Aplicações Financeiras para reforçar mecanismos de governança, controle e redução de riscos. A estatal afirmou ainda que os investimentos no Banco Digimais não serão renovados e que os recursos serão direcionados para instituições financeiras consideradas mais sólidas.
Por sua vez, Antonio Carlos dos Santos declarou que todas as aplicações realizadas seguiram as normas internas da companhia e foram aprovadas pelos órgãos competentes, incluindo Conselho de Administração, Comitê de Auditoria e Diretoria Executiva. Ele também negou qualquer interferência política nas decisões de investimento.
Primeiros aportes ocorreram em 2025
A primeira aplicação relevante da Cedae no Banco Digimais ocorreu em junho de 2025, quando foram destinados R$ 35 milhões à instituição. O investimento recebeu parecer favorável da diretoria mesmo sem liquidez diária, o que impedia o resgate dos recursos antes de 180 dias.
Na avaliação técnica da época, a operação foi considerada atrativa devido à cobertura oferecida pelo Fundo Garantidor de Créditos para valores de até R$ 40 milhões.
Poucos meses depois, em agosto de 2025, uma nova aplicação de R$ 25 milhões foi autorizada. Desta vez, o prazo de vencimento chegou a um ano.
Banco Digimais acumulava alertas e rebaixamentos
Mesmo diante do agravamento da situação financeira do banco, a Diretoria Financeira da Cedae continuou recomendando a manutenção dos investimentos.
Em fevereiro de 2026, o Comitê de Auditoria da estatal debateu os riscos envolvendo instituições financeiras que recebiam recursos da companhia. O grupo chegou a solicitar estudos para avaliar a possibilidade de realocar investimentos para bancos com melhor classificação de risco.
Ainda assim, uma nota técnica emitida em março de 2026 classificou a situação do Digimais como negativa, citando prejuízos acumulados e forte dependência de depósitos a prazo. Apesar disso, a recomendação foi pela manutenção dos recursos aplicados.
Na ocasião, cerca de R$ 39 milhões permaneciam investidos na instituição, valor próximo ao limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.
Agências de classificação de risco rebaixaram nota do banco
O cenário se agravou nos meses seguintes. Em março de 2026, a agência Fitch Ratings rebaixou a classificação do Banco Digimais para BB-, considerada especulativa pelo mercado financeiro.
Já em maio de 2026, a Moody’s reduziu a nota da instituição para CCC+, nível associado a elevado risco de inadimplência.
Segundo a agência, o rebaixamento ocorreu devido ao crescimento da exposição do banco a fundos de investimento alternativos e às incertezas sobre a qualidade e a recuperação desses ativos. O relatório também apontou ressalvas da auditoria externa em relação a parte significativa dos investimentos mantidos pela instituição.
Política da Cedae restringia aplicações em bancos com baixo rating
Na época dos rebaixamentos, a Política de Aplicações Financeiras da Cedae já restringia investimentos em instituições com classificações de risco tão baixas. No entanto, os contratos firmados anteriormente impediam o resgate imediato dos recursos, mantendo os valores aplicados até o vencimento.
O caso levanta questionamentos sobre os critérios adotados para a aplicação de recursos públicos durante a gestão anterior da estatal e sobre a manutenção dos investimentos mesmo diante dos alertas emitidos por agências especializadas e órgãos internos de controle.





